
- A senhora não vai terminar de contar a história, senhora ? - Me lembro de ter perguntado quando a senhora havia parado de contar minha história favorita e passara a contar outra.
- Não posso contar o final ainda, querida. - Ela sorriu docemente como sempre fazia.
Suspirei e decidi abrir o caderno da senhora de uma vez, e lá estava uma mensagem na primeira página, que havia sido escrita recentemente:
Sorri. A senhora sempre falara e escrevera daquela maneira, nunca de forma clara, sempre para nos fazer pensar e interpretar por nós mesmos.
Virei a página, e logo me deparei com mais da caligrafia fina e inclinada da senhora , mas escrito com muito mais firmeza do que na página anterior em que deixara a mensagem para mim. Aquela e as páginas seguintes haviam sido escritas há vários anos...
Capítulo 1
"Eu estava sentada no topo daquela conhecida colina havia horas. Sempre gostara de ir até lá para pensar e pensar nas coisas, e às vezes, para não pensar em nada e simplesmente esquecer todos os tipos de problemas.
Suspirei sentindo aquele ar puro entrando em meus pulmões, e fechei os olhos assim que a brisa leve bateu em meu rosto. Naquela colina me sentia livre de todo aquele mundo que começava a mergulhar em desgraça com toda a ameça de guerra a ponto de deixarem de serem ameaças. Podia esquecer qualquer coisa que quisesse ali.
- Sempre pensativa, . - Ouvi a voz conhecida de murmurar enquanto sentava-se ao meu lado.
- Na verdade, caro , estava começando a pensar em não pensar em nada quando chegou. - Murmurei de volta olhando para o maravilhoso horizonte alaranjado com o entardecer.
Sorri quando senti a mão de escorregar até a minha segurarando-a levemente.
- Espero que minha pessoa não esteja incluída nesse nada, . - Sabia que ele sorria em minha direção, mas não queria encará-lo.
- Obviamente não, senhor . - Sorri finalmente encarando-o.
Seu olhar estava sobre mim e seus lábios estampavam um sorriso bobo. sempre olhava-me daquela forma quando pensava que eu não estava prestando atenção. Assim que percebera que eu o encarava, desviou o olhar para o horizonte, e ficara calado por alguns instantes, logo soltando um risinho e voltando a me encarar. Revirei os olhos. Ele sempre fazia isso quando era pêgo por mim.
- Gosto de te ver pensando. Principalmente quando pensa em mim. - Ele sorriu apertando um pouco mais minha mão.
- E como sabe quando estou pensando em você? - Questionei erguendo minha sobrancelha e ele riu divertido.
- Seu olhar brilha mais intensamente, você sorri discretamente e... - Ele parou pensativo.
- E...?
- E eu simplesmente sei que está pensando em mim. - Concluiu dando de ombros.
Eu ri de sua resposta e o abracei surpreendendo-o.
- Hum, acho que a geleira está derretendo... - murmurou fazendo-me dar-lhe um bom tapa no braço o largando de imediato.
- Não há nenhuma geleira. - Reclamei. - Só não quero que alguém nos veja próximos demais e saia falando bobagens a nosso respeito. Sabe como meus pais são conservadores.
- Eu sei, , eu sei. - Ele murmurou suavemente me abraçando e colocando o queixo no topo de minha cabeça. - E você sabe, ao menos eu espero que desconfie, que em breve essa cautela não será mais tão necessária. - Ele disse da forma mais calma e simples do mundo. Eu enrigeci em seus braços com as possibilidades que se passavam em minha cabeça. Várias circulavam e iam embora, apenas uma permanecera.
- Não... - Murmurei me separando dele para encará-lo nos olhos.
Seus olhos brilhavam com expectativa, e um sorriso torto, aquele que eu mais amava, se formava em seus lábios.
- Achei que tinha dado bastante indícios disso nas ultimas semanas, ... - murmurou encarando minha provável expressão surpresa. - Achei que fosse mais rápida nessas coisas... - Ele balançou a cabeça negativamente, divertido. Dei-lhe um tapa no braço o encarando séria.
- , quer parar de brincadeiras? - Resmunguei fazendo careta.
voltou a ficar me encarando sem dizer absolutamente nada por cerca de um minuto inteiro, até que aquele silêncio começara a me incomodar, e eu me virei em sua direção para questionar.
- Se lembra de quando nos encontramos aqui pela primeira vez? - Perguntou antes que eu pudesse me adiantar. Balancei a cabeça afirmando sem conseguir usar palavras para responder. - Você parecia tão distante, e eu me lembro de ter levado um soco quando me aproximei um pouco demais de você. - Ele riu me fazendo rir junto.
Como não lembrar daquele dia? Eu pensava no quanto os rapazes daquela cidade eram completamente infantis, quando de repente sinto uma mão desconhecida tocar meu braço, tirando-me do tranze e me assustando. Minha reação instintiva - exagerada e mal educada, admito - foi dar um soco no atrevido e invasor.
- ... E daí eu disse...
- Você disse: você tem um belo soco, garota. - Interrompi , que riu deliciado com o fato d'eu lembrar o que havia dito.
Seria impossível não lembrar. Fora aquele dia em que interagi pela primeira vez com aquele rapaz completamente maluco, que ao invés de se afastar de uma garota que lhe dera um soco, acabara por se aproximar ainda mais.
- Não entendo até hoje por que não foi embora como qualquer pessoa normal faria se levasse um soco. - Murmurei rindo.
- Ora, , depois daquele soco me vi completamente apaixonado! Como poderia me afastar daquilo que amo? - Ele disse como se fosse a coisa mais normal a se dizer, e quando ouvi a ultima frase, pude sentir meu rosto corar levemente, o que não passou despercebido por meu companheiro na colina. - Fica ainda mais bonita quando está corada, . - sorriu tocando de leve minha face, o que me fez corar ainda mais.
- E por que raios estamos nos lembrando desse dia, ? - Perguntei tentando mudar de assunto, e me afastando de sua mão.
- Porque queria que se lembrasse do como seu soco me atingiu profundamente. - Revirei os olhos pelo duplo sentido que a frase tinha, e ele riu divertido novamente. - E também, porque queria lembrar a data que nos trouxe a isso. - Sorriu quando percebeu que tinha novamente a minha atenção.
- A isso o quê? - Perguntei vendo-o se endireitar a minha frente com um sorriso largo.
- , daria-me a honra de ser seu namorado?
Fiquei encarando por um longo tempo aquele pequeno aro de folhas verdes feito a mão, modelado no formato de uma aliança, que agora estava em meu dedo. Eu mal podia acreditar naquilo, me pedira em namoro.
Digo, e eu - desde aquele incidente do soco - somos melhores amigos, ele soube dos meus maiores sonhos, dos meus segredos, da minha vida, do meu estado de espírito, de tudo, assim como eu soube de tudo sobre ele. Éramos grandes amigos de verdade, mas como disse anteriormente, meus pais eram bastante conservadores - conservadores demais para a época -, e a ideia d'eu ter um amigo não os agradava em nada. Para meu pai, homem só poderia se aproximar de mim com intenções sérias e com sua aprovação.
nunca se apresentou formalmente à eles - meus pais, quero dizer - sempre dera um jeito de escapar dos encontros com papai e mamãe e saía correndo. Por isso mal acredito que ele realmente tenha me pedido em namoro...
- Prometo que lhe comprarei o melhor e mais brilhante anel de compromisso em breve, . - disse-me sorrindo enquanto eu o abraçava com força.
- Não precisa, porque este é perfeito! - Eu exclamei soltando-o do abraço e sentindo meus olhos marejarem.
- Você merece o melhor e mais perfeito anel de todos. - contestou me encarando sério.
Sorri em sua direção e encarei o aro que envolvia meu dedo.
- E o que seria melhor e mais perfeito do que um anel feito pelas mãos de quem amo? - Questionei, e logo vi um largo sorriso estampar o rosto de meu melhor amigo, agora namorado.
- Ouvi mesmo a você dizer que me ama? - Ele perguntou olhando-me marotamente, e mais uma vez naquela tarde senti meu rosto corar.
Baixei o olhar completamente sem jeito, eu não costumava expor meus pensamentos ou sentimentos assim, tão claramente. Senti a mão de acariciar meu rosto suavemente, e logo fazendo-me encará-lo nos olhos.
- Gosto do que ouvi... - Murmurou sorrindo docemente para mim. - Poderia dizer novamente?
- Eu te amo... - Disse quase num sussurro, constrangida.
- Diga-me novamente, por favor? - Ele pediu.
- Eu te amo. - Disse novamente um pouco mais alto.
- De novo?
- Eu te amo .
- Outra vez? - Olhou-me com ar maroto, e eu o encarei séria.
- Está querendo me irritar, ? Pensa que sou um gravador que fica repetindo as coisas? - Reclamei me afastando um pouco, indignada.
- Claro que não quero te irritar, e nem penso que é um gravador, senhorita . - Murmurou se aproximando de mim novamente, segurando minha mão. - Só gosto de ouví-la dizer que me ama. - Sorriu entrelaçando nossas mãos. Com a outra mão ele fez com que virasse meu rosto em sua direção para que pudesse encará-lo. - Pode me dizer só mais uma vez?
Revirei os olhos, e depois de dar um soco nem tão leve assim em seu braço, eu ri.
- Eu te amo, ! - Exclamei sonoramente para quem quisesse ouvir.
Agora estava sentada numa das cadeiras da cozinha esperando com minha mãe a resposta de meu pai a .
Os dois estavam naquela sala de estar há horas! O que poderiam estar conversando por tanto tempo? Será que papai recusara-se a aceitar meu namoro? Não, se assim fosse, sequer estaria naquela sala a uma horas dessas, meu pai o teria expulsado a ponta pés. Mas então, o que os dois poderiam estar falando por tanto tempo?
Eu já me via agoniada quando adentrou a cozinha e deu-me um sorriso tranquilizador, avisando-me que meu pai queria falar comigo.
Levantei prontamente e me dirigi a sala de estar, onde entrei e fechei a porta.
- Minha menina, quando foi que cresceu tão rapidamente? - Ele questionou sentado em sua costumeira poltrona.
Eu apenas olhei para baixo timidamente, e ele riu.
- Este rapaz, , parece gostar realmente de você, filha... - Murmurou levantando-se e caminhando em minha direção. - Mas... Não sei se ele poderia lhe dar tudo o que necessita. - Suspirei nada satisfeita com o comentário. - Quero dizer, você mal tem um anel de compromisso de verdade! - Exclamou.
- Tenho sim, papai. - Resmunguei mostrando-lhe meu dedo. - E este é o mais lindo e perfeito anel que eu poderia ter. - Meu pai suspirou parecendo derrotado.
- Certo, certo... Eu não ganharia jamais esta discussão, ganharia? - Perguntou rindo de si mesmo.
- Não, papai, não ganharia. - Eu disse acompanhando-o no riso.
- Minha menininha, já tão crescida! - Murmurou mais para si mesmo do que para mim. - Tem a minha permissão, então. - Ele sorriu e eu pulei em seu pescoço para abraçá-lo. - Querida, quero estar vivo para levá-la ao altar, mas se continuar a me apertar dessa forma não conseguirei respirar... - Papai murmurou com a voz sufocada, e eu gargalhei me afastando para deixá-lo tomar ar.
Sem dizer mais nada saí da sala com rapidez e logo me vi abraçada fortemente a , que envolveu-me com um dos braços e com o outro colocou uma mecha de meu cabelo para trás da orelha.
- Eu mal posso acreditar, ! - Exclamei, e sabia muito bem que meus olhos brilhavam intensamente naquele instante.
- Pois eu acredito e muito que sou o namorado da garota mais perfeita do mundo... E que agora ela é minha. - Ele murmurou dando-me um beijo na testa.
- Eu sempre fui sua, seu bobo. E sempre serei. - Sorri apertando-o ainda mais no abraço."
Capítulo 2
"- Ah, , você é tão sortuda! - Ouvi Mary exclamar quando contei a ela e a Cecilie a boa nova.
- Sortuda nada, já estava na hora, depois de três anos! - Ceci riu de minha cara de poucos amigos direcionado a ela. - Já era de se esperar que ele tomasse uma atitude, não? Digo, se ele não o fizesse outro alguém faria, com certeza! - Cecilie murmurou dando de ombros me fazendo rir.
- Pois saiba que a resposta que dei a jamais daria a outro alguém. - Eu disse por fim sentando-me no sofá da sala de estar de minha casa.
- Ah, mas isso é tão romântico! - Mary voltou a exclamar com seus grandes olhos verdes brilhando com intensidade.
- Para ficar perfeito só ficou faltando um anel de verdade. - Cecilie disse erguendo a sobrancelha enquanto encarava meu dedo.
Revirei os olhos. Mas o que todos pareciam ter contra meu anel de namoro?
- Ceci, você é uma boba! Esse anel é só mais uma prova do quanto a ama. Ele mesmo fez o anel, tem coisa mais romântica e fofa? - Mary nos defendeu - o anel e a mim.
- Para mim seria uma bela prova de amor se ele fizesse um anel de brilhantes com as próprias mãos...
- É, mas o namorado não é seu, Ceci, e sim da , e ele sabe muito bem o que agrada nossa amiga, o que não tem nada a ver com o que te agrada. - Mary exclamou parecendo brava, enquanto Cecilie dava de ombros sem ligar muito.
- Certo, certo, querem calar a boca vocês duas? - Perguntei ligando a televisão para apartar a futura discussão.
- Aah, pra quê você quer assistir ao noticiário? Essa coisa só traz notícias ruins, e só piora o fato de estar havendo uma revolta lá fora. - Ceci murmurou observando as cenas apavorantes sobre a quase guerra nos países vizinhos.
- Só porque é horrível, não podemos deixar de nos manter informados. - Mary murmurou e eu concordei.
- Somos idiotas, porque dia após dia ligamos nessa droga de canal na esperança de receber a maravilhosa notícia de que a guerra lá fora terminou. Não vai acontecer. - Cecilie resmungou se jogando no sofá ao meu lado.
As horas passaram rápidas com Mary e Ceci exclamando sobre guerra e sobre meu recente pedido de namoro.
O fim de tarde chegou e minhas duas melhores amigas foram embora para suas casas me deixando sozinha em minha casa. Meu pais haviam saído para resolver alguns assuntos com meu irmão, Brandon, e eu havia ficado para trás. Pouco tempo no silêncio de meu lar, e já me vi completamente entediada. Resolvi subir minha colina favorita e apreciar o fim de tarde como fazia na maioria das vezes. Peguei uma blusa fina pois começava a esfriar com o crepúsculo, e eu bem sabia que não tinha hora prevista para retornar para casa.
Ao chegar ao topo da minha colina tranquila me espantei ao me deparar com um bastante concentrado acompanhado de seu violão surrado. Observei-o por um tempo tocar alguns acordes, não queria interrompê-lo no meio de alguma criação ou momento de reflexão, mas como sou bastante discreta acabei por ser notada ao pisar numa folha seca no chão.
virou-se em minha direção e sorriu largamente como sempre fazia para mim.
- Você demorou hoje... - Ele murmurou erguendo a sobrancelha.
- Não sabia que tínhamos um encontro combinado... - Murmurei indo me sentar ao seu lado.
- Bem, não temos mas... - coçou a nuca um pouco sem jeito.
- O que está fazendo na minha colina? - Perguntei tentando descontrair.
- Quer dizer nossa colina. Ela é nossa há três anos. - me lembrou e me fez rir.
- Certo, certo, então o que está fazendo na nossa colina, ?
- Bem... - Ele baixou o olhar parecendo um pouco sem graça, o que era algo raro de se ver, pelo menos para eu ver.
- Sim? - Perguntei.
- Já que faz um dia que estamos namorando, então resolvi que devemos marcar esse dia com algo especial... - murmurou um pouco menos acanhado e muito mais parecido com o 'velho' . - Então selecionei uma música que acho que você gosta. - Sorriu endireitando-se com o violão.
I was alone, I took a ride,
Eu estava só, eu dei um passeio
I didn't know what I would find there
Não sabia o que iria encontrar lá
Another road where maybe I could see another kind of mind there
Outra estrada onde talvez eu pudesse ver outro tipo de vida
Oh, then I suddenly see you,
Oh, então de repente eu a vejo
Oh, did I tell you I need you
Oh, eu disse que preciso de você
Every single day of my life
Todo santo dia de minha vida?
Sorri, havia escolhido uma canção que eu adorava, não só pelo ritmo, mas pela letra tão apaixonante que me prendeu a ela desde a primeira vez em que a ouvi.
You didn't run, you didn't lie
Você não correu, você não mentiu
You knew I wanted just to hold you
Você sabia que eu só queria te abraçar
And had you gone you knew in time we'd meet again
E caso você tivesse ido, você sabia a tempo que nos encontraríamos novamente
For I had told you
pois eu tinha lhe dito
Oh, you were meant to be near me
Ooh, era seu destino estar junto de mim
Oh, and I want you hear me
Ooh, e eu quero que você me ouça
Say we'll be together every day
Dizer que estaremos junto todos os dias
Got to get you into my life
Preciso ter você em minha vida
- Got to get you into my life... - Murmurou para mim com um sorriso que apenas ele sabia dar.
Preciso admitir que meu coração havia se derretido com aquele gesto tão simples mas lindo. Só era capaz de me fazer sentir daquela forma, sempre ele.
Me joguei na direção de seus braços e o abracei com força, eu tinha o sorriso maior que a cara, podia apostar.
- Acho que você gostou da música... - Ele murmurou soltando um risinho e me abraçando de volta.
- Amei, , amei! - Exclamei me afastando para poder encará-lo.
O sol estava quase totalmente posto naquele instante, mas sua pouca luz iluminava as feições de meu namorado, que ficara incrivelmente mais perfeito do que sempre com aquele detalhe a mais. Respirei fundo e lhe sorri. ficara confuso com o sorriso repentino que ressurgira em meus lábios e tenho certeza de que questionaria o fato se antes disso eu não o calasse com um beijo. Um beijo que estava sendo guardado especialmente para ele, e para ninguém mais. a princípio ficara imóvel, ele estava confuso, eu sabia; mas logo cedeu ao meu beijo, o nosso primeiro como um casal.
Passamos o resto do fim de tarde e mais um pouco da noite na colina, abraçados em silêncio, apenas apreciando a companhia um do outro e vendo a noite cair lentamente."
Capítulo 3
alguns meses mais tarde...
"Já disse o quanto amo enormemente ? Porque ele é simplesmente o namorado mais perfeito da face da Terra, e porque... Bom, porque definitivamente ele é o único que faz uma canção de aniversário para a namorada mais sortuda do mundo!
É, foi bem isso que me deu em meu aniversário de 19 anos...
- , querida, tem certeza de que não quer comemorar seu aniversário com uma festa como sempre? - Minha mãe perguntou logo que acordei.
- Sim mamãe, tenho planos para hoje. - Sorri.
- Aposto que tem a ver com o jovenzinho... - Mamãe murmurou rindo. Ela sempre chamava daquela forma, de "jovenzinho".
- Sim, tem a ver com ! - Exclamei pulando de minha cama para me ajeitar. Eu havia combinado de encontrar na colina bem cedo, ele disse que queria "aproveitar o primeiro aniversário que passávamos como namorados" desde o início, e ele não estava brincando quando disse "desde o início".
- Querida, são cinco horas da manhã, o sol sequer nasceu, onde vai a uma hora dessas?! - Perguntou parecendo preocupada com minha sanidade.
- Combinei com que me encontraria com ele na colina bem cedinho, minutos antes do sol nascer. - Sorri.
- E vai sozinha? Ele não vem buscá-la?
Revirei os olhos. sabia melhor do que ninguém que eu sabia muito bem me cuidar e me defender num momento de emergência. Na verdade, acho que todos naquela pequena cidade sabia que eu tinha um belo soco de direita e um chute bastante eficaz, só os que não sabiam - ou que não queriam aceitar - eram meus pais.
- Mãe, sei me cuidar muito bem, e além disso, nessa cidade todo mundo se conhece, ninguém seria louco o bastante de fazer mal a alguém aqui. - Dei de ombros pegando minhas roupas e fazendo minha mãe sair do quarto para poder me trocar.
Quando estava pronta, saí de meu quarto e fui em direção à porta.
- Filha, tem certeza de que não quer que alguém te acompanhe? - Perguntou minha mãe com um olhar ansioso e preocupado.
- Mãe! - Reclamei. - Já disse que sei me cuidar, agora tenho que ir, já deve estar na colina, estou atrasada! - Exclamei vendo o céu clarear um pouco.
- Certo... - Mamãe soltou um suspiro. - Filha?
- Sim, mamãe? - Virei-me em sua direção mais uma vez.
- Feliz aniversário. - Sorriu jogando-me um beijo no ar, sem querer me atrasar ainda mais com um abraço apertado e demorado.
- Obrigada, mãe. - Sorri e fechei a porta enquanto saía correndo para o caminho de terra que levava ao topo da nossa colina.
Cheguei ao topo em dez minutos, eu havia corrido para chegar até lá em cima, e estava completamente ofegante quando me joguei sentada ao lado de , que riu divertido me encarando.
- Veio correndo? - Perguntou como se não fosse óbvio.
- Você disse para eu tentar não me atrasar, foi o que fiz. - Murmurei ainda recuperando o fôlego.
- Certo, não está atrasada. - Ele sorriu dando um beijo em minha bochecha.
- Ajudaria muito saber para o que eu não estou atrasada...
- Estamos esperando por um convidado especial. - Murmurou enquanto passava o braço por meus ombros.
Encarei-o completamente confusa e questionadora, mas ele fizera questão de me ignorar, olhar para a frente e rir. Fiquei ainda mais confusa, mas deixei passar. Ficamos ali abraçados por alguns minutos, até virar o rosto em minha direção, mas mantendo os olhos voltados para frente.
- Aí vem nosso convidado especial... - Sussurrou encarando um ponto fixo, o que me fez olhar para a mesma direção, o horizonte.
Demorou certo tempo até eu poder compreender que convidado era aquele e o que estávamos fazendo na colina a uma hora daquela, mas finalmente entendi.
se referia ao nascer do Sol. Estávamos lá para vê-lo aparecer no horizonte e lançar sua luz sobre nossa pequena cidade. O céu escuro ia clareando aos poucos, a medida em que o maravilhoso astro começava a despontar.
- Isso é tão mágico... - Murmurei sem poder tirar os olhos do horizonte. Era realmente mágico ver o céu clarear aos poucos, a noite se transformando em dia...
- Eu sabia que ia gostar. - sussurrou segurando uma de minhas mãos. - E já que nosso amigo Sol já está presente, que tal tomarmos um belo café da manhã? - Perguntou quebrando completamente o clima de meus pensamento.
Eu revirei os olhos e ri. sempre fazia graça das coisas, não importava o quão românticas, ruins ou maravilhosas fossem. Mas esse era um dos pontos que eu tanto amava naquele rapaz...
- Certo, senhor sabichão, o que vamos comer? Grama? - Perguntei olhando ao redor.
- Eu vim preparado, ! - Exclamou. - Trouxe o melhor dos capins! - Respondeu brincalhão, e eu lhe dei um belo tapa no braço. - Ok, brincadeira! - Murmurou massageando o lugar em que eu o estapeara. - Vamos fazer um piquenique de aniversário, o que acha?
- Ótimo! Mas onde está a comida? - Perguntei novamente olhando ao redor a procura de algum vestígio de alimento.
- Vamos ter nosso piquenique na praça. - Respondeu normalmente enquanto se levantava.
- Como é?!
- É, na praça. Ninguém vai se importar, estão todos dormindo a uma hora dessas, e além de que, aqui tem muitas formigas... - Murmurou a ultima parte fazendo careta para o chão.
me puxara colina a baixo e me levou até a praça central da cidade, que por sinal estava deserta, exceto pelo fato de um dos amigos de estar ali com uma garota ajudando a preparar nossa "refeição ao ar livre".
- Ok, Dan e Lessa, podem ir agora, prometo compensar vocês mais tarde. - Sorriu para os amigos que riram revirando os olhos.
Mathew se sentou e eu o acompanhei olhando tudo que estava sobre aquela toalha típica de pique-nique. Havia chá, suco, bolinhos recheados, e muita, muita fruta!
Encarei rindo, ele me conhecia bem, eu adorava frutas no café da manhã, e também suco e chá. Não gostava de beber leite de manhã, e eu nunca descobri o porquê disso...
- Ah, você trouxe uva! - Exclamei com os olhos brilhando. Só de ver a cor e o tamanho da fruta, eu já sabia que se tratavam das uvas da senhora Hopkins, uvas sem sementes.
- Claro, como eu poderia deixar a minha amada sem uvas? - Perguntou brincalhão.
- Meu café da manhã poderia ser feito só de uvas. - Comentei.
- Ah, tudo bem, fique com as uvas que eu fico com o resto! - exclamou pegando um bolinho e enfiando na boca.
- Hunf, seu guloso! - Murmurei e ele deu língua.
Revirei os olhos e peguei um bolinho recheado e com cobertura de creme que parecia estar ótimo, eu ia levá-lo a boca quando uma ideia marota passou por minha cabeça. Fitei , e ele estava ocupado demais saboreando seu bolinho para prestar atenção no que eu faria... Então lambuzei o dedo com a cobertura de meu bolinho e rapidamente melequei o rosto de que me encarou surpreso. Eu caí na gargalhada ao reparar na cara confusa de meu namorado, mas as risadas acabaram assim que ele tacou uma uva na minha cara.
- AS UVAS NÃO! - Foi o que exclamei fazendo-o rir e balançar a cabeça negativamente.
- Certo então, nada de uvas. - Murmurou pegando um bolinho com cobertura também.
- Não! - Exclamei pegando outro bolinho.
ia me "atacar" com seu bolinho, mas eu fora mais rápida, e meti a parte da cobertura do meu bolinho em seu nariz. Ele fez um careta engraçada e deixou seu bolinho de lado, se aproximou de mim e roçou seu nariz no meu, fazendo com que eu também ficasse suja de creme. ia selar nossos lábios quando ouvimos um "click" que nos assustou um pouco. Olhamos para o lado e vimos uma mulher com uma câmera fotográfica nas mãos. Ela sorriu e bateu mais uma foto nossa.
- Desculpe atrapalhar... - Murmurou sem graça.
se levantou e foi em direção à mulher, falou alguma coisa com ela e depois voltou a se sentar ao meu lado. Não perguntei o que ele havia dito à mulher, mas sabia que um dia descobriria...
Começou a tocar alguns acordes, e logo começou a cantar...
We're too young
Nós somos muito jovens
this is never gonna work
Isso nunca vai funcionar
that's what they say
isso é o que dizem
you're gonna get hurt
você vai se machucar
but I know something they don't
mas eu sei algo que eles não sabem
I hear your heart
Eu ouço seu coração
beating right in time
batendo no tempo certo
right from the start
desde o início
I knew I had to make you mine
Eu sabia que tinha que fazer você ser minha
And now I'll never let you go
E agora eu nunca vou deixar você ir
Don't they know that love won't lie?
Eles não sabem que o amor não mente?
Don't listen to the world
Não escute o mundo
they say we're never gonna make it
Eles dizem que nós nunca vamos conseguir
Don't listen to your friends
Não escute os seus amigos
they would have never let us start
Por eles nós nunca começaríamos
Don't listen to the voices in your head
Não escute as vozes em sua cabeça
listen to your heart
escute seu coração
This promise
Esta promessa
doesn't have to be too loud
não precisa ser muito alta
Just whisper
Apenas sussurre
I could find you in a crowd
Eu poderia te encontrar em uma multidão
I think it's time we run away
Acho que é hora de fugirmos
Your father says I'm not good enough and
Seu pai diz que eu não sou bom o suficiente e
Your mother she thinks that this is just a phase
Sua mãe pensa que esta é apenas uma fase
I think that we should run away
Acho que devemos fugir
[...]
It will tell the truth
Ele vai dizer a verdade
It will set you free
Ele vai te libertar
It will say that you were meant for me
Ele vai dizer que você foi feita para mim
And this is where you're supposed to be
E aqui é onde você deveria estar
Listen to your heart
Eu sorria feito boba quando a canção terminou, podia sentir vários olhares apreciando o pequeno show de no meio da praça. Eu não podia fazer outra coisa a não ser beijá-lo com vontade, tenho certeza de ter ouvido alguns suspiros vindos de algumas garotas que assistiam. separou nossos lábios e sorriu com ternura. Definitivamente aquele era o melhor aniversário ao lado do melhor namorado."
Capítulo 4
um ano mais tarde...
"- Não, por favor, não ! - Exclamei ao receber aquela notícia, a notícia que nos separaria. - Você não pode ir!
- Sabe que não é uma coisa que eu possa escolher, pequena... - murmurou acariciando minha face molhada pelas lágrimas teimosas que escorriam por meus olhos. - Fui convocado, tenho que ir.
- Não! - Retruquei sem querer aceitar. - Fuja , finja estar doente, qualquer coisa, só não vá... - Murmurei fungando.
- ... - disse fazendo-me olhar em seus olhos. - Eu vou. - Falou sério.
Fiquei sem fala.
- Vou lutar pela minha pátria... - Disse ele vendo-me chorar.
- Existem pessoas demais lutando por sua pátria lá, por que precisam fazer isso? - Resmunguei com raiva, com raiva da guerra que estourava lá fora.
- Não vou só pela pátria, vou defender você. - Sorriu para mim como se aquilo realmente tivesse sentido.
Encarei-o completamente confusa, realmente estava pensando que a sanidade de meu namorado havia ido embora no momento em que ele recebera a convocação. Ele riu de minha expressão e voltou a me acariciar.
- Não posso deixar que invadam nosso país, não posso deixar que você esteja em perigo, jamais. - Segurou meu rosto para que eu pudesse encará-lo.
- Você não faz sentido algum, ! - Reclamei agarrando-o num abraço. - Não pode ir, não pode!
- Eu preciso, pequena, preciso... - Murmurou beijando-me o topo da cabeça.
Soltei-o do abraço e me afastei.
- Quando? - Questionei com medo da resposta.
- Amanhã. - Foi a palavra que quase me matou.
Não, no dia seguinte, não... Deus, não pode estar fazendo isso comigo! Era tudo o que conseguia pensar, escorreguei pela parede até sentar no chão, eu havia perdido as forças. se agachou ao meu lado e fez menção de me tocar, mas eu me encolhi. Ele apenas acenou com a cabeça positivamente, ele sabia que eu precisava de um tempo sozinha para raciocinar e digerir todas aquelas informações.
- Eu gostaria de te encontrar na colina de noite, gostaria de me despedir... - Foi tudo o que disse antes de dar meia volta e sair da minha casa.
Tudo o que consegui fazer foi enfiar a cabeça entre os braços e chorar. Meu namorado estava dando um passo para a morte, aquilo era suicídio. Por que justamente fora convocado? Por que essa maldita guerra não podia simplesmente acabar pacificamente, sem mais mortos, sem mais perdas, sem mais destruição... Talvez Cecilie tivesse razão, talvez esse inferno nunca terminasse.
Fiquei um bom tempo no mesmo lugar, sentada, chorando... Fiquei ali até minha mãe chegar quase chorando também.
- Ah, minha filha! - Ela exclamou me abraçando enquanto soluçava em meu ombro. Meus olhos já haviam secado, eu havia chorado todas as lágrimas uma hora e meia antes de minha mãe chegar, gastei-as chorando por .
- O que houve mamãe? - Perguntei fungando.
- Brandon foi convocado. - Foi tudo o que conseguiu dizer antes de se desmanchar em lágrimas.
Fiquei parada sem reação... Meu irmão?
Eu já não tinha lágrimas para serem choradas, mas meu sentimento de angústia só aumentava a cada segundo. Deus, por que isso?
Demorei uma hora inteira para conseguir acalmar minha mãe. Ela sempre fora mais fraca emocionalmente do que eu, e sendo assim, eu teria que bancar o pilar naquele momento, teria de ser mais forte, por mim e por ela. Mamãe adormeceu depois que tomou o chá que lhe dei para acalmar os nervos, isso aconteceu por volta das três horas.
Fui para meu quarto e fiquei trancada por lá algum tempo. Todos os pensamentos que tinha levavam a , aos momentos lindos que passamos juntos, aos sorrisos, às brincadeiras... Foi quando percebi que a noite já estava caindo, me assustei e num pulo saí de minha cama.
disse que queria me ver de noite na colina, que queria... Se despedir.
Apesar de estar relutando quanto a "nos despedirmos", não poderia perder tempo longe dele, não, isso não.
Me aprontei o mais rápido possível, fazia certo frio lá fora, então tive que trocar de roupa e vestir uma blusa. Saí correndo em direção à nossa colina, e cheguei a seu topo completamente ofegante.
- Que bom que veio. - Ele murmurou parecendo feliz.
- Não podia deixar de vir, . - Respondi indo me sentar ao seu lado, e também notando o violão de sempre do seu outro lado.
- Eu te amo, , e sempre vou te amar, sempre. - Ele sussurrou dando-me um selinho. - Não quero que tenha raiva de mim por ir a essa guerra. Sei que acha que é algo inútil, e eu também acho, mas gosto de pensar que eu posso fazer a diferença lá, de alguma maneira. - Ele sorriu com o pensamento. - Então peço que faça a diferença para mim aqui, para que eu tenha algo pelo quê voltar. - Disse essa ultima parte com um nó na garganta.
Encarei-o sentindo as lágrimas voltarem aos meus olhos, fiz menção de responder, mas ele colocou o dedo em meus lábios impedindo-me.
- Antes de qualquer coisa, eu tenho uma ultima canção para você, minha pequena. - Ele sorriu pegando seu violão, se preparando e logo começando a tocar a nova canção.
She'll let it slide
Ela vai deixar escapar
All the things that I
Todas as coisas que
Have running through my mind
Passam pela minha cabeça
Will all be gone in time
Tudo passará a tempo
Remember son
Lembre-se filho
All the things you've done
Todas as coisas que você fez
And all the things you've lost
E todas as coisas que você perdeu
And all the things you've won
E todas as coisas que você ganhou
We're just trying to find some color in this
Estamos apenas tentando encontrar um pouco de cor
black and white world
neste mundo preto e branco
Tell me everything (it will be alright)
Conte-me tudo (vai ficar tudo bem)
Walk this way with me (into the light)
Caminhe comigo por esse caminho (para a luz)
If you can let it slide
Se você pode deixar escapar
Baby just for the night
Baby apenas por uma noite
Just know that everyone feels broken sometimes
Saiba que todos se sentem discriminados às vezes
Should have taken time
Não deveria ter tido pressa
Things will be just fine
As coisas vão ficar bem
To bite the hand that feeds
Morder a mão que alimenta
'Cuz nothings ever mine
Pois nada nunca é meu
And just wait your turn
E espere a sua vez
And always try to learn
E sempre tentar aprender
To love the ones that don't show love in return
A amar aqueles que não mostram amor em troca
[...]
When you walking backwards
Quando você andar para trás
Don't be afraid to close your eyes
Não tenha medo de fechar os olhos
'Cuz the truth is darling
Porque a verdade, querida, é
That everything will be alright (alright)
Que tudo ficará bem (certo)
Tell me everything (will be alright)
Conte-me tudo (vai ficar tudo bem)
Walk this way with me (into the light)
Caminhe comigo por esse caminho (para a luz)
If you can let it slide
Se você pode deixar escapar
Baby just for the night
Baby apenas por uma noite
Just know that everyone feels broken sometimes
Saiba que todos se sentem discriminados às vezes
Oh yeah, everyone feels weak sometimes
Ah, sim, todo mundo se sente fraco às vezes,
Yeah we all feel fucked up sometimes
Sim, todos nós nos sentimos meio fodidos às vezes
Não pude deixar de soltar um risinho quando disse a ultima frase da canção. Ele olhou para mim sorrindo maroto, e eu sorri de volta.
- Sempre estarei aqui pra você, . - Murmurei abraçando-o com força e sentindo as lágrimas voltarem.
- Obrigado, pequena. - Ele sorriu beijando minha testa.
Ele me abraçou e nos deitamos na grama encarando o céu escuro e cheio de estrelas.
Adormecemos ali, abraçados. Só despertamos quando o sol despontou lançando seus raios sobre nós."
Capítulo 5
"No meio da tarde ele partiu, me deixou para trás...
- Faça a diferença para mim aqui... - Disse ele antes de ir junto com meu irmão.
Mamãe estava ficando louca com tudo aquilo.
Brandon deixara uma carta para que ela lesse toda vez que sentisse sua falta. Até tentaria ligar, mas todos nós sabíamos que seria impossível com mísseis e bombas destruindo tudo pela frente lá fora.
também me deixara uma carta, e eu entreguei-lhe a minha, como era de costume se fazer com soldados recrutados. Todos que tinham alguém especial em seus corações recebiam uma carta dessa pessoa. Talvez servisse de incentivo, de instinto de sobrevivência sentimental.
Eu não tivera coragem de abrir a carta de naquele dia. Não queria pensar numa carta de despedida, nas palavras que ele poderia ter escrito para se despedir de mim. Só de me pegar pensando nisso meu coração se apertava aqui dentro de mim, ele chorava tanto quanto eu antes de me deitar e dormir. Eu não podia chorar na frente de minha mãe ou ela desmoronaria. Não, eu tinha de ser forte e também otimista. Vários de meus visinhos haviam retornado do "campo de batalha" num país visinho, e estavam realmente bem, ao menos fisicamente...
Mas era forte, e além disso, era o meu , e ele voltaria pra mim.
Eu precisava me distrair, então fiquei em meu quarto repassando cada palavra que havia colocado na carta de ...
"...
Deus, acreditaria se eu dissesse o quanto me sinto boba falando com você por uma carta?
Acho que vou sentir falta das nossas conversas na colina.
Acreditaria também que estou chorando enquanto escrevo? Espero que essa carta ainda seja legível quando chegar a suas mãos...
Sabe , eu estou com medo, mas estou pensando em você agora, então está ficando tudo bem... Eu aprendi, . Assim como você um dia me disse que fazia quando estava com medo. Se lembra? No nosso segundo dia na colina, quando estávamos debaixo da nossa árvore encolhidos por causa da chuva, eu estava realmente com medo daquela tempestade, e então você me disse:
- Quando tenho medo, eu penso em alguém especial, em alguém que sei que pode me proteger.
E agora que estou com medo novamente, um medo insupotável, assustador, estou pensando na pessoa especial da minha vida, na pessoa que sei que pode me proteger de qualquer coisa: você.
Pode ser muita pretensão minha pedir isso, mas sabe... Quando você estiver com medo aí, pense em mim porque eu estarei pensando em você... Talvez nossos pensamentos se encontrem e possamos proteger um ao outro, ou simplesmente dar esperança ou força. Eu acredito em você , e acredito que voltará pra mim, para ser novamente meu..."
Meus pensamentos foram interrompidos pelo choro incontrolável de minha mãe na sala. Ela soluçava alto e dizia coisas que ninguém conseguiria entender.
Fui até ela e a abracei.
Ficamos ali abraçadas por um longo tempo, até papai chegar do trabalho, e preocupado levá-la para seu quarto. Ele preparou um chá fumegante e ofereceu a nós duas, eu recusei.
- Estou bem, papai. - Disse séria.
- Ora filha, vamos. Sei que você é forte, mas não é de pedra. - Murmurou abraçando-me e dando um beijo em minha testa. - Vá tomar um banho quente, vou tentar preparar nosso jantar. - Ele riu tentando descontrair, mas uma ruguinha de preocupação continuava marcando sua feição.
Eu assenti e me dirigi ao banheiro, obviamente sem antes pegar minha roupa.
Fiquei debaixo do chuveiro um longo tempo, mesmo depois de limpa. Eu pensava em . Como ele deveria estar, onde estaria, o que fazia...
Pensei também no fato de papai não ter sido convocado também... Ele tinha problemas de saúde, o que impediam de convocá-lo. Suspirei de alívio. Se papai também fosse para a guerra... Deus sabe como mamãe estaria a essa hora...
Comecei a sentir frio, e esse foi o único fato que me fez sair debaixo do chuveiro.
Depois que saí do banho, fui até a cozinha dar uma olhada em meu pai. Ele estava completamente enrolado no fogão, tentando dar conta de três panelas ferventes ao mesmo tempo. Não consegui não rir. Corri até ele para ajudá-lo, antes que ele colocasse fogo em nosso jantar.
Ele preparara arroz, tentara fazer macarrão, grelhara alguns pedaços de frango... Ajudei-o a preparar a salada que mamãe mais gostava, e ele expremeu laranja para um suco.
Na hora da janta comemos em silêncio. Minha mãe ainda fungava e limpava algumas lágrimas com um lencinho rendado, papai suspirava a cada fungada de minha mãe, e eu... Bem, eu pensava em como sempre.
Terminei meu jantar e acompanhei meus pais no chá para acalmar os nervos; escovei meus dentes e fui para meu quarto. A carta de estava em minha mesinha de cabeceira esperando para ser lida, mas mais uma vez eu a ignorei.
Fiquei deitada no escuro apenas com a luz da lua e das estrelas no céu adentrando meu quarto. Olhei para o céu estrelado e me lembrei da noite anterior em que e eu ficamos encarando as milhares de milhões de estrelas acima de nós... Fora tão mágico, como se nada nem ninguém pudesse nos separar... E era isso que me dava medo, estar separada dele.
Olhei para a carta na mesinha de cabeceira e a peguei encarando-a em seguida. Eu estava fazendo isso, nos separando, enquanto não lia a carta. Era uma parte dele ali, a parte que ele deixara para mim...
Abri o envelope branco e desdobrei a carta, fazendo uma outra folha cair, mas minha atenção estava voltada para a letra firme de . Sorri quando li as primeiras duas linhas: Era uma canção, Faithfully - Journey.
Correndo na auto estrada,
Para o sol da meia noite,
Rodas giram e giram
Você está na minha mente
Corações sem descanso
Dormem sozinhos à noite
Enviando todo meu amor
Através do fio do telefone
Dizem que a estrada
Não é lugar para se começar uma família
Em todos os sentidos
Tem sido eu e você
E amar um músico
Não é sempre o que deveria ser
Oh, garota você fica ao meu lado
Serei sempre seu, fielmente
A vida de circo
Sob o mundo das elites
Todos nós precisamos de palhaços
Para nos fazer sorrir
Através do espaço e do tempo
Sempre outro show,
Me perguntando onde estou
Perdido sem você
E estar separado não é fácil
Neste nosso relacionamento
Dois estranhos aprendem
A se apaixonar de novo,
Tenho a alegria
De redescobrir você
Oh, garota fica do meu lado
Serei sempre seu, fielmente...
Fielmente, eu serei sempre seu
Eu serei sempre seu
Pra sempre seu... Fielmente...
Depois de ler e re-ler, eu ri comigo mesma.
Eu devia esperar algo assim dele, uma música, uma música que eu realmente achava linda...
Deixei a carta de lado por um momento, e então me lembrei do que havia caído quando tinha desdobrado a carta. Olhei para um retângulo branco em cima da cama e o peguei virando-o. Era uma foto, a foto que aquela mulher havia tirado de nós dois na praça, no dia do meu aniversário... Senti meu rosto esquentar e meus olhos arderem e embaçarem. Lá estávamos nós dois, com os narizes todo lambuzados de cobertura de bolinho, os rostos bastante próximos.
Senti vontade de voltar no tempo e congelá-lo ali, só nós dois eternamente...
Me deitei na cama com a carta e a foto apertadas contra o peito, e em poucos minutos eu adormeci...
Capítulo 6
?Os dias se passaram arrastando com longe de mim e com a angústia tomando meus pensamentos.
Geralmente eu era menos negativa, mas se tratava de meu namorado, meu namorado no meio de uma guerra absurda. Eu não conseguia ser positiva sobre isso com todas as notícias terríveis que apareciam todos os dias.
Os Carlson haviam perdido o filho mais velho há poucos dias, estavam arrasados, e isso só me fazia ter mais medo de que acontecesse o pior com e Brandon.
- Eles são fortes e espertos, voltarão antes mesmo que você consiga sentir mais falta. ? Mary tentara fazer-me sentir melhor, mas meu coração estava apertado de angústia e medo. ? Hei, ele prometeu que voltaria, vai cumprir, você vai ver!
Eu sorri com o comentário. Ele havia prometido.
Estava tentando esquecer de um pouco, mas era impossível, quem conseguiria esquecer a pessoa que ama? Não adiantava o quanto eu tentasse não pensar nele, ele era tudo que me vinha à mente. Foi então que decidi ir à nossa colina, já que só conseguia pensar em , então eu pensaria nele no lugar em que ele parecia estar sempre presente.
Chegando ao topo, sentei-me no lugar em que costumava sentar, encarei o horizonte límpido, completamente livre de nuvens, sorri. teria adorado ver aquela paisagem, nós nos abraçaríamos e apreciaríamos o céu assim, juntos. Suspirei ao me ver pensando nele novamente. A angústia sempre batia ao me lembrar dos momentos que tivemos juntos e que possivelmente estaríamos tendo se ele não tivesse sido obrigado a ir para o campo de batalha por motivos tão mesquinhos.
Lembrar da guerra dava-me raiva. Por que aquela... Coisa precisava existir? Para ceifar mais vidas e toda a paz? Essa era a única resposta em que conseguia pensar, o único motivo. A vontade era de sacudir o mundo para fazer a todos abrirem os olhos, para quê uma guerra se somos capazes de resolver os conflitos e problemas com palavras, simples discussões que não valeriam vidas de inocentes?
Mamãe não gostava de saber o que eu pensava sobre guerra, talvez ela tivesse medo do que poderia me acontecer com meus pensamentos anti-guerra, já papai detestava me ouvir falar com tanto ódio dessas coisas, ele se orgulhava de ter servido na segunda guerra quando mais jovem, se orgulhava até demais.
Bufei pensando no assunto, e de repente a angústia voltou a mim com toda sua força, senti uma vontade intensa de chorar e me desmanchar em lágrimas, literalmente se fosse possível. As lágrimas não tardaram a chegar, mas eu mal sabia o porquê daquilo, num momento eu estava razoavelmente bem, e em outro, lá estava eu chorando feito uma criança. Senti o peito apertar, aquilo parecia sufocar-me, mas não literalmente, era algo estranho...
Respirei fundo e decidi que estava na hora de voltar para casa, já estava de tarde e eu queria estar com mamãe, já que naquele horário papai tinha coisas a fazer e não estava em casa. Não era bom deixar minha mãe sozinha nas condições emocionais em que se encontrava. Desci a colina sem pressa e fui para casa tentando ignorar a angústia que me atacava.
Minha mãe ouvia atentamente o rádio em seu quarto. Ela estava fraca e angustiada por Brandon, não queria sair do quarto para muita coisa, havia emagrecido alguns quilos e tinha olheiras profundas, resultado de noites sem dormir para chorar.
Eu não estava muito diferente, ao menos nos sentimentos. Meu pai não demonstrava, mas eu sabia que ele se sentia tão apreensivo quanto mamãe e eu.
- Alguma novidade? ? Perguntei assim que entrei em casa.
Minha mãe fungou.
- Não querida, o mesmo caos de sempre... ? Ela fez careta, percebi que segurava o choro.
Resolvi deixá-la sozinha para chorar, dizem que chorar faz bem não é?
Eram cinco e meia da tarde quando comecei a fazer o jantar. Meu pai chegou um tempo depois e ficara fazendo companhia para minha mãe que o abraçou fortemente.
Eu estava terminando de por a mesa quando a angústia súbita me atacou novamente, desta vez com muito mais vontade. Senti um aperto no coração, e minha respiração se agitou. Quando percebi, eu estava indo para meu quarto com os olhos marejados.
- Filha? ? Papai chamou-me. ? O que houve? ? Perguntou preocupado.
- Nada pai, só não me sinto muito bem... ? Murmurei na porta de meu quarto. ? Podem jantar sem mim, sim? ? Sorri fraco e encostei a porta, logo depois me jogando na cama e desatando a chorar.
Eu não sabia de onde tudo aquilo estava vindo, era só mais um dia como todos os outros das ultimas duas semanas e nunca me senti daquela forma, então o que diabos estava acontecendo comigo?
Voltei meu olhar para minha janela aberta, o céu já estava escuro e algumas estrelas já começavam a aparecer. Sorri ao mesmo tempo em que mais lágrimas escorreram de meus olhos. adorava olhar as estrelas, e eu adquirira a mesma paixão com ele. Adormeci olhando as pequeninas deitada em minha cama...
Sonhei que estava num deserto vasto todo colorido de bege, solo, céu, ar... Tudo tinha os mesmo tons. O sol estava escaldante e eu sentia minha pele queimar. Minha boca estava seca e meu coração estava disparado. O que eu fazia naquele lugar? Como sairia dali? Eu me sentia desesperada, comecei a caminhar tentando me encontrar, mas tudo era tão igual que a cada dois passos eu me sentia tonta e perdida. Larguei-me no chão sentada e completamente sem esperanças.
?...? Ouvi um sussurro sendo trazido com o vento. Olhei para os lados a procura de quem havia me chamado.
- Quem...
?...? Ouvi novamente, e então despertei.
Meu coração estava acelerado e meu corpo estava suado, o sol entrava por minha janela aberta, e aquele dia estava realmente quente. Sentei-me tentando fazer minha respiração voltar ao normal, foi quando minha mãe abriu a porta com o rosto vermelho de choro.
E então eu soube que quem me chamara em meu sonho fora .?
Muito clichê, I know, mas eu gosto dessa fic *-*